Anti-heróis


Um dos meus primeiros contatos com a arte, quando era criança, foi através da televisão, dos filmes e animes que passavam na TV aberta, e depois com a acessibilidade da internet, muitas outras portas me foram abertas.


Ainda nessa época, eu me lembro que todos os meus amigos eram viciados em Naruto, Dragon Ball, Cavaleiros do Zodíaco, e eu ainda não assisti algumas delas, até hoje. Eu não entendia bem o porquê, mas alguns daqueles animes não me prendiam, eu não chegava a achar ruim ou algo do tipo. Eles simplesmente não me despertavam interesse. Já dez anos depois da minha adolescência, conheço muitas coisas sobre roteirização, construção de personagens e etc. E assim, hoje eu entendo o porquê não gostava (e ainda não gosto) de algumas dessas obras.


Heróis são chatos, tediosos e previsíveis.


Senhoras e senhores, sejam todos bem-vindos à Coluna Despertar.


Antes de mais nada, quero deixar bem claro que eu não estou falando que essas obras são ruins, afinal, não é porque eu não gosto de algo, que aquilo seja ruim, talvez só não seja pro meu gosto, minhas preferências. Então caso tenha uma crítica sobre algo que você goste, não fique com raiva, é só uma questão de gosto mesmo, ok?


Enfim... heróis são chatos, e quando eu digo herói, não são só esses heróis de capa com superpoderes, isso geralmente acontece com a maioria dos protagonistas, aqueles personagens com força de vontade inabalável, que nunca se ajoelham perante um problema, que fazem o bem a qualquer custo, são justos e bondosos, e vão combater os vilões ou as pessoas ruins, com todas as suas forças.


Isso é chato! Não existem pessoas assim, ninguém nesse mundo é perfeito, e não existem santos, no máximo, no máximo, essas obras que trazem esses personagens genéricos vão nos apresentar um herói trágico. Herói trágico é aquele que fez algo de muito ruim e está tentando consertar. Isso é muito usado em filmes de romance, o cara dá um vacilo no relacionamento e depois tem que fazer de tudo pra mostrar que está arrependido, e no final, ele consegue e se torna o marido ou o namorado perfeito. Parece um conto de fadas, não importa o tamanho do problema, você sabe que no final, todos vão viver felizes para sempre.


Por exemplo, o próprio Naruto (que meus amigos eram viciados), quando eu era mais novo e essa obra ainda estava em andamento, estava em produção, eu tinha certeza que no final ele iria alcançar o sonho dele, ser reconhecido, e todos aqueles personagens viveriam felizes, e eu acertei, é isso que acontece, é tudo muito previsível, tão previsível, que pra mim perde a graça.


Por sorte, ainda na adolescência, eu tive o meu primeiro contato com um anti-herói, o nome dele é Keikurono, mas antes de falarmos dele, vamos entender o que é um anti-herói.


Enquanto os heróis têm todos os atributos necessários para superar qualquer problema, são bondosos, têm senso de justiça, são aqueles que você bate o olho e fala: "Esse cara é bonzinho." Anti-heróis não têm nada disso, personagens anti- heróis são muito mais humanos, nós conseguimos enxergar neles defeitos e qualidades também. A ética e a moral de um personagem anti-herói, a índole, as coisas que ele pensa ou as escolhas que ele toma são questionáveis. Um anti- herói pode fugir, pode deixar de salvar alguém para salvar o próprio pescoço, pode mentir, eles não são vilões, porque não estão fazendo o mal, mas eles nem de longe são heróis perfeitos, e nem sempre vão estar querendo fazer o bem.


E para dar um exemplo, vamos voltar ao Keikurono, ele é o protagonista de Gantz e é um completo fracassado, ele mesmo admite isso pra si mesmo, a família não gosta dele, ele tira péssimas notas na escola, não tem amigos, não faz sucesso com as garotas, e ele sabe que não tem um coração bom. Isso fica muito claro, logo nos primeiros capítulos, onde ele absolutamente não está nem aí, vendo outra pessoa prestes a morrer na frente dele, e quando ele finalmente entra no "Gantz", que é como se fosse um jogo grotesco, violento e sanguinário, muitos atos heroicos dele são pensando nele mesmo, ele salva garotas com a intenção de ficar com elas, ele mata criaturas que estavam prestes a matar outras pessoas, só pra acumular pontos pra ele mesmo, e até mesmo quando ele vai salvar alguém por bondade, digamos assim, as pernas dele tremem, e ele se pergunta se vale a pena arriscar a própria vida pra salvar outra pessoa.


Pra mim, se torna um personagem muito mais interessante do que esses heróis perfeitos e previsíveis. Isso não acontece só em animes e mangás ou em obras de heróis.


No ano 2019 acabou a tão grandiosa saga da Marvel nos cinemas. Eu assisti todos os filmes, e lembro que no penúltimo, todo mundo ficou de boca aberta porque o mal, supostamente, terminava vencendo, e muitos personagens morriam. Eu já sabia no que iria dar. Os personagens voltam no tempo e todo mundo termina vivendo feliz para sempre.


Agora, um bom exemplo de filme com anti-herói, um dos meus filmes preferidos, inclusive, é Taxi Driver. Todo mundo que assistiu a esse filme, percebe que o protagonista acaba se tornando um herói, por puro acaso. Enquanto ele, na verdade, deveria ser considerado um vilão, toda a construção de como isso acontece e como esse personagem se desenvolve no filme, é algo que simplesmente não tem como você esperar, é algo imprevisível.


Outro ótimo exemplo é O Homem Sem Nome, o protagonista da Trilogia dos Dólares. Eu não vou me aprofundar muito aqui, porque eu pretendo falar mais desses filmes em outros textos, mas nos três filmes da Trilogia do Dólares, nós podemos ver o homem sem nome fazendo atos bondosos, salvando um vilarejo, salvando alguém aqui ou ali, e se mostra um personagem com princípio e bondade, porém, ele nunca deixa de pensar em dinheiro, ele blefa, ele mente e ele chega até a participar de alguns golpes e de alguns assaltos.


Também existe uma série chamada True Detective, a primeira temporada dessa série me apresentou a melhor dupla de policiais que eu já vi. Martin é um homem de família, cristão, que trai a esposa com uma garota muito mais nova, do próprio trabalho, ferindo assim, a própria família, a religião e a corporação. Sua dupla é Hust, um cara muito inteligente, talvez um dos melhores detetives do país, que faz de tudo pra solucionar seus casos e salvar as pessoas envolvidas, porém, ele só faz isso porque é o seu trabalho, e o trabalho é o único propósito restante em sua vida, desde que sua filhinha morreu. Ele se tornou completamente pessimista, e tem pensamentos suicidas. Esse primeira temporada, tem muita inspiração num livro chamado O Rei De Amarelo, esse livro é muito bom e já inspirou até mesmo o próprio Love Craft.


Voltando aos mangás, uma última vez nesse texto, eu tenho que falar no que talvez seja o maior anti-herói de todos, Guts, de Beserker. Esse personagem demonstra amor, ele zela por suas amizades, mas é de uma maneira completamente seca. A vida bateu tanto em Guts, que a personalidade dele é mais fria do que até mesmo alguns vilões, ele não se importa com outras pessoas que não sejam próximas a ele. Ele não tem compaixão, Guts só é movido por um objetivo, vingança! Vingança contra o mal que arruinou a vida dele, então Guts não faz mal para outras pessoas que não se metam em seu caminho, ele não é um vilão, mas seus poucos atos heroicos que acontecem as vezes, acontecem porque estão no meio de seu caminho enquanto está destroçando esse "mal", esses "vilões", e é aí que ele acaba salvando uma pessoa ou outra sem querer, ou salva para que ela o ajude de alguma forma, dando alguma informação ou coisa do tipo.


E para finalizar, eu deixei o que é, atualmente, o meu anti-herói preferido, Sandman/Morpheus/O Sonho, como quiserem chamar, ele é uma criatura de vários nomes, Sandman é sem sombra de dúvidas uma das melhores obras que eu já li na minha vida! É um quadrinho sobrecarregado se referências históricas, literárias, de ocultismo, de simbologia, demonologia e de filosofia.


(Se você lê a minha coluna porque abordo todos esses assuntos, você tem que ler Sandman! Eu quero preparar uma série de Sandman aqui pra coluna, e espero postá-la até o fim do ano, aguardem.)


Voltemos ao tema do texto. O anti-herói Morpheus é um perpétuo, ele é mais do que um deus, ele é uma criatura que faz parte da essência, da existência. Uma das coisas que simplesmente precisa existir! Como a morte, por exemplo, tudo morre, a morte é necessária. E por mais que ele seja uma criatura tão sublime, que está acima de deuses e divindades, Morpheus tem defeitos, ele é orgulhoso, ele comete erros, ele tem dúvidas, e é muito interessante ir virando as páginas de Sandman e poder ver a evolução de Morpheus. Ver que por mais que ele evolua, ele sempre terá defeitos, porque não existem santos. Mesmo deuses erram, nada nesse universo é perfeito, a própria obra deixa isso muito claro, nada nesse universo é perfeito. E é por isso que heróis assim, perfeitos, são chatos, tediosos e não despertam o meu interesse.


Eu dispenso contos de fadas.

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