rota de fuga

por Jana Lourenço

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Segunda-feira

23/09/2019

Hoje, minha rota de fuga será para fugir da regra de texto dissertativo aqui na coluna. Espero que entenda o especial motivo.

 

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   Ela tinha 20 anos, mas também tinha o medo de uma garotinha de sete, perdida dos pais. Ela se sentia muito sozinha, a sensação de ter que enfrentar um mundo inteiro somente com a força de seus punhos cerrados era assustadora. Aquele seria o dia que sua vida mudaria para sempre, seu mundo lilás ganharia novos tons grafitados na madrugada; nunca mais teria os mesmos valores, e repentinamente seria inundada por sentimentos que jamais lera ou ouvira alguém descrever com perfeição, porque não há verbalização capaz de explicar. Naquele dia, sentiria dores que nunca pensara que um corpo humano fosse capaz de aguentar, sentiria vontade de morrer e ao mesmo tempo pediria para ser eterna.

 

   Foi uma madrugada longa, muito longa. Deitada em um leito frio da local Santa Casa, ficou acompanhada por gritos e vozes histéricas dos leitos vizinhos a noite toda, o que estranhamente a fez sentir-se menos sozinha. Ela mantinha-se silenciosa e forte. Gritava para dentro. Olhava para o teto luminoso, cravava as unhas no colchão e gritava dentro de sua mente, enquanto seu corpo se contorcia. Não queria levar as broncas que ouvira daquelas mulheres de branco que escolheram a profissão errada, seria demais para seu momento único. Uma grande janela sem cortinas mostrava a primeira noite da primavera de 2001. Seria uma noite agradável, não fossem as horas e horas sozinha até que uma mão encontrasse a sua, já com o sol iluminando sua dor. Um médico a examinava, enquanto uma enfermeira que escolheu a profissão certa lhe apoiava. Estava na hora. O coração já não tinha mais tanto ânimo para acelerar em disparada, estava tranquilo.

 

    O corpo exausto ainda teria que ser forte como nunca fora em 20 anos. Empurraram sua maca até o local já preparado para recebê-la. Novas luzes, novas pessoas, novo ar com cheiro iodado. Ela continuava sozinha, sozinha de mãos e olhos conhecidos. Palavras de incentivo foram ouvidas: "Respira, respira, força, você consegue!", uma enfermeira lhe disse olhando nos olhos. O médico só queria que ela fizesse força: "Espere a dor voltar e faça força como se estivesse no banheiro", foi o que ela ouviu em um dos intervalos de dor, e assim fez por mais duas ondas de contrações que invadiram seu corpo, e na terceira vez, um jato do que parecia ser água, molhou os braços do médico, até ele se assustou. E a insuportável dor, instantaneamente sumiu. Alívio, choro e olhos. Pequenos olhos abertos e sujos a olhavam. Um pequeno ser surgira diante de sua vida e de seu amor.

 

    O nascimento de uma mãe acabara de ser registrado na cidade de Santos - SP, no dia 23 de setembro de 2001, às 9h43. Ela não sabia que era possível medir o amor, mas era. O amor tinha 49 cm e pesava 3.620 kg. O amor era perfeito. O amor tinha cabelos levemente ruivos, lindos olhos castanhos, e enchia seus pulmões de vida a cada pequeno choro. O amor cabia em seus braços e sugava seus melhores pensamentos e sentimentos, enquanto se alimentava em seu seio. O amor lhe olhava com um olhar que foi criado por Deus para ser cravado somente nas mentes dos seres mais fortes do universo, as mães.

 

    Há 18 anos ela é feliz, há 18 anos ele nasceu, seu primogênito, seu amigo, seu menino, seu Giulliano.

 

    Hoje aquele pequeno ser toma posse de sua maioridade. Hoje ele é um rapaz lindo, inteligente, educado, trabalhador e faz com que aquela menina-mãe, que nasceu há 18 anos, que enfrentou tantas batalhas e aprendeu tudo o que precisava, sozinha, tenha orgulho de ter conseguido cumprir o papel que lhe foi dado pela vida. Ela gostaria de ter evitado muitas dores, gostaria de ter lhe protegido de cada sensação de medo, de tristeza. Ela gostaria de ter você sempre em seus braços, um pequenino pedaço de amor divino. Mas na impossibilidade, a mulher-mãe é grata por um dia ter sido seu mundo, e hoje, lhe entrega orgulhosa para o mundo.

 

Feliz vida, meu filho.

Eu te amo!

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Palavras fugitivas

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