O cinecropsista

por Frank Willian

A dor e o sofrimento a sete minutos depois da meia noite

Segunda-feira

07/10/2019

​Eu esperava apenas um filme de fantasia, talvez tivesse um aspecto de suspense mais marcante que os filmes de fantasia convencionais, mas definitivamente não esperava um drama existencialista. “Sete minutos depois da meia noite” me tirou da zona de conforto emocional para mais de sete minutos de reflexão profunda depois da meia noite. Sugiro que assista ao filme antes de continuar a leitura, não vou me ater a resumos para contextualizar o conteúdo extraído. Desconhecer a obra antes da leitura de sua resenha é inválido, é como uma necropsia sem um corpo.

   Connor O'Malley é um garoto de 12 anos que vive com sua mãe que luta contra um agressivo câncer, que sofre nas mãos de sua vó rígida e lamenta a ausência do pai, que sofre com a solidão da invisibilidade social na escola, onde só é notado como vítima na hora de apanhar dos valentões. Connor O’Malley tem uma vida difícil. Como se não bastasse, ele tem constantes e idênticos pesadelos em que ele precisa salvar sua mãe de uma cratera, mas sempre acorda antes de saber se conseguiu. Somos apresentados à solitária vida de Connor, que em todas as suas relações pessoais apresenta um bloqueio para uma interação saudável, causando-lhe um sofrimento que apesar de silencioso é corrosivo.

   Aos sete minutos depois da meia noite, um monstro em forma de árvore visita Connor e lhe propõe contar três histórias, mas a quarta será o Connor a contar. Elas contam sobre como nossa interpretação nem sempre leva em consideração a verdade para o julgamento do que é bom e do que é mau, sobre como depositamos nossas crenças em razões insólitas e que a invisibilidade dói porque não somos invisíveis, mas são as pessoas que não veem em nós algo digno de ser notado.

  Aquelas histórias, assim como a interrupção inconveniente do salgueiro para contá-las não fazem sentido ao menino, ele está focado no sofrimento que todos os conflitos gerados pela saúde decadente de sua mãe lhe causam. Ele não sabe lidar com a realidade e encará-la, não é uma opção bem-vinda. Não se trata apenas de acompanhar um processo lento de perda e luto, mas Connor não admite a vontade que ele sente de que a sua dor se finde, mesmo que isso signifique não ter mais sua mãe. Sua culpa é tão grande que seu desejo pela punição é levado a níveis extremos, ele está constantemente procurando a punição de seus responsáveis e se oferecendo ao bullying sofrido na escola. A autopunição é como uma expiação para a culpa, mesmo que inconsciente, é uma dor justificada pelo merecimento, um pagamento pela má índole. Esse comportamento é doloroso, mas encarar nossos conflitos é muito mais difícil. Acaba sendo uma zona de conforto não confortável, uma escolha de uma dor em detrimento do outro. Pode soar irracional escolher algo autodestrutivo para não encarar verdades desconcertantes, mas como a sua própria mãe lhe diz: “As pessoas não gostam daquilo que não conhecem, elas têm medo.” Somos repelidos pela nossa insegurança e medo do futuro, e tendemos muito mais a viver ciclos viciosos de condutas impulsivas.

   O monstro não promete salvar a mãe de Connor, como ele tanto quer, mas ele está ali para salvar o próprio Connor. Expõe o garoto através das histórias de uma maneira bastante íntima em metáforas que jogam ao próprio menino todos os aspectos de sua vida que ele foge e tem medo.  Connor é o príncipe que antagoniza o bem e o mal, sem reconhecer que as impressões que tem de sua madrasta não condizem com suas intenções e que egoistamente mata a camponesa para que tenha controle da população e consiga se sobressair. Connor é o religioso que deposita toda sua fé no lugar errado e desmorona quando sua fé não lhe assegura mais. Por fim, Connor é o homem invisível que não suporta mais sua condição solitária e luta por visibilidade.

   Ao fim, o garoto precisa contar a última história, a história que seria a verdade. À beira da morte de sua mãe, em um momento de ápice emocional, ele precisa encarar a verdade (a verdade protelada vai sempre ser obrigatória quando o beco não tiver saída). A dura verdade é que ele tem medo de ficar só. O lugar de invisibilidade é solitário demais por si só, a sua avó é distante demais para ser uma companhia, seu pai não demonstra interesse o suficiente para lhe assumir por inteiro, sua mãe está partindo e ele ficará mais só e mais invisível. A dor de Connor O’Malley não consiste somente em  encarar a morte de sua mãe, mas também em encarar a solidão.  Em seu sonho, segurar a mão de sua mãe não é só uma questão de salvá-la, é para que seu mundo não termine de desabar. Essa é a egoísta verdade de Connor O’Malley, seu maior medo, culpa, sofrimento e dor. Ao confessar, o monstro lhe pega no colo, consola e conclui: “Os seres humanos são criaturas complicadas que acreditam em mentiras agradáveis conhecendo a verdade dolorosa que as torna necessárias.” A fuga da verdade para não lidar com o sofrimento é um tanto danoso. Quanto mais travestimos nossas inseguranças, menos nos capacitamos para lidar com a dor e com o sofrimento de uma realidade que é por si só difícil. Precisamos nos responsabilizar pelos nossos medos e vivenciar nossos sentimentos que por mais que sejam tenebrosos, são legítimos, só assim podemos saber o que fazer com tudo isso na frente.

   Connor se despede de sua mãe, deixa-a partir, vai morar com sua vó e por mais que seja um final de alívio, não é um final feliz. O monstro lhe ajudou a reconhecer os processos e a encará-los, mas ele ainda tem, além do luto, a missão de fazer com que seus medos não sejam seu futuro. Connor ainda terá de lutar por visibilidade e agora vai ser mais complicado sem seu maior elo de interação e afeto. Mas entenda, tudo isso não consiste em uma resolução final como esperamos de finais felizes. Connnor aprendeu a encarar seus medos e agora ele vai ter que vivenciá-los para fazer diferente. Desse modo caímos em uma clássica verdade difícil de encarar: a vida é assim e não tem para onde fugir.

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