destaques

Rafael

7121d7f2-a519-4d03-8c56-aeb176c3a23e.jpg

|Velha do pau

Com oito anos de idade eu era coroinha da paróquia da cidade. Sempre escolhia a missa das sete horas do domingo, pois me sobrava o resto do dia livre. Acordava seis e meia, me arrumava e antes dos outros familiares acordarem eu já estava cruzando o centro da cidade, sentido ao santuário. Na quadra da igreja havia um colégio em reformas, estavam construindo novas salas no que antes era o estacionamento da igreja. Enquanto duravam as obras, eu sempre passava por ali para poupar tempo. Naquele domingo, porém, algo inesperado ocorreu. Enquanto eu seguia pelo trajeto vi que o pároco da igreja, Frei Gentil (que realmente era gentil), estava na janela de um dos quartos, dispostos acima da secretaria da igreja. Ergui a mão o cumprimentando, estava contente, pois, provavelmente, ele celebraria a missa e eu gostava de suas homilias. Quando ele me viu começou a agitar as mãos desesperado. Achei engraçado e segui. Ele então gritou "Corre, Miltinho!!!". Enquanto eu tentava entender se era uma brincadeira ou não, um pedaço de madeira passou a poucos centímetros de minha cabeça. Olhei para trás e ali estava a "Velha do pau", senhora conhecida na região por carregar um lençol cheio de pedras e paus por onde fosse, iniciando sua artilharia. Nunca corri tanto na minha curta vida, esperava que ela durasse mais um dia. Ao chegar às escadas, desesperado após ser alvo de pedras e ripas, encontrei o frei, rindo que se mijava. "Achei que teríamos a missa sem coroinhas hoje", disse em meio a risadas. Até hoje, quase trinta anos depois, temo que ela ainda esteja correndo atrás de mim.

Destaque da 1ª semana de junho

tema: medo

Fernando

28418470_1882102195165807_683259053_o.jp

|Ao dormir eu penso se aquela pode ser minha última noite aqui
Todo dia ao fechar os olhos eu tenho medo de não abri-los pela manhã
Fico tenso ao imaginar que não vou lembrar de tudo o que eu vivi
Começo a chorar com a incerteza do que virá
Se existir o novo e apagar o velho
Qual a razão da minha dedicação do agora?
São tantas versões e nenhuma convicção
Diversas crenças e não encontro conforto para o meu coração
Eu tenho medo de não acordar
Eu tenho medo de ter sido tudo em vão
Eu tenho medo de decepcionar e não poder corrigir
De não me desculpar e do meu modo de agir
Finjo que esqueço todas essas aflições
Me faço de forte, confiante e que vivo uma vida plena
Mal sabem vocês que todo esse medo me condena
E ele ao meu lado permanecerá
Até o dia em que enfim, ela acontecerá
Se a escuridão tomar conta e tudo se tornar esquecimento
Eu esquecer seu nome, minha vida e todos aqueles momentos
Eu tenho medo de morrer
A única coisa que eu quero, é viver

Destaque da 2ª semana de junho

tema: medo

Victão

Design sem nome (12).png

| Fobia De Escuridão
Estou caminhando noite a dentro sem destino
Vagando por aí, em uma estrada mal iluminada
Ladeado de muros altos que me avizinham o olhar
Dando a impressão de que estou preso em um labirinto
Um lampião com uma luz bem fraca, ilumina a minha frente
Quando a luz, então, começa a piscar inconstante
Até que então, um vento arrepiante sopra e ela se apaga
E então, fez-se a escuridão
Sinto que o meu coração acelera depressa
Arregalo os meus olhos, mas a íris não suporta
O breu toma conta da minha caminhada
Me sinto ansioso ao ouvir passos em minha direção
A sensação do fim começa a tomar conta de mim
Arrepio todos os fios de cabelo do meu corpo
As pernas começam a bambear diante do perigo
O temor toma conta de mim e minhas mãos suam frio
Um vulto desforme cruza comigo pela escuridão
Vejo algo se movendo rapidamente no alto do muro
O seu olhar fixo em mim me dá calafrios
Os meus pelos da nuca me mostram que algo está errado
Ouço uma voz distante chamando o meu nome
Penso em correr, mas não consigo sair do lugar
Ouço mais passos vindo de trás de mim
Um farfalhar de asas me soa estranho
Dobro meus joelhos e toco o chão para me sentir seguro
Mas a verdade é que o terror já se apossou de mim
Vou engatinhando lentamente pela rua
Buscando sentir o cheiro e toque de algo além do breu
Sinto que alguém está me observando à espreita
Mas não consigo nem ver os meus dedos
A sensação de impotência e abandono proliferam
O medo agora é tangível e minha face se enrijece
A respiração já se torna ofegante e os sentidos me traem
Ouço uma gargalhada sinistra bem próxima de mim
Levanto a cabeça e vejo olhos brilhantes na minha frente
Olhei para o que eu não queria ali naquela rua
Agora será difícil esquecer aquela aparição
Sinto a presença de algo sombrio ali naquela estrada
Tento chegar até o muro caminhando apressadamente
Sinto um líquido viscoso penetrando por entre meus dedos
O cheiro de fogo, enxofre e fuligem me tomam as narinas
Não consigo saber o que é verdade ou imaginação
A mente já perdeu a razão, agora que estou aterrorizado
A sensação de que a minha vida está escorrendo pelas minhas mãos

Busco seguir até o fim do labirinto que me enfiei
Tento achar a saída, percorrendo todos os cantos tocados pelos muros
De repente me deparo com a figura mais ameaçadora que já vi
Seus olhos fitam os meus e sinto que minha alma está sendo sugada
Ela se aproxima de mim e eu dela, com cautela
Estico os braços para tocá-lo e então percebo
A figura em minha frente é meu reflexo no espelho

Destaque da 3ª semana de junho

tema: medo